terça-feira, setembro 11

Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente - SP


O FENTEPP

24/08/2007
Crítica: SOBRE MENTIRAS E SEGREDOS
ESPETÁCULO: SOBRE MENTIRAS E SEGREDOS
MOSTRA PALCO ADULTO – DIA 23, TEATRO CÉSAR CAVAOS CICLOMÁTICOS CIA. DE TEATRO – RJ
COMÉDIA DO BOM GOSTO
Marici Salomão
Características exemplares dos novos modos de produção dos teatros de grupo, do texto à iluminação, surgem com força nesta montagem já premiada em festivais de Sobre Mentiras e Segredos, dos Ciclomáticos Cia. De Teatro, do Rio de Janeiro. Com texto e direção assinados por Ribamar Ribeiro, a peça é uma incursão, no registro do cômico, pelo universo do dramaturgo Nelson Rodrigues. Companhia com dez anos de estrada, a Ciclomáticos transforma o que poderia ser só comediazinha em uma aula de como a ética encaminha uma estética de grupo, a partir da apropriação e do diálogo entre as instâncias criativas por parte de todos os seus integrantes.A peça parte de premissas como a de pais que desconhecem o comportamento de seus filhos, casais que não conhecem a si mesmos e indivíduos que desconhecem seus próprios impulsos. Para tanto, cria um universo patológico a partir da família do Dr. Ismael. Sua filha caçula, Alice, é levada aos 14 anos ao ginecologista. Descobre-se que a menina está grávida. O pai, convicto de que ela foi deflorada por um de seus genros, deflagra uma devassa no núcleo familiar, pressionando o culpado a aparecer. Enquanto mentiras e segredos vêm à tona, a vizinhança se esbalda em especulações.Dessa história, a companhia formada por um coletivo talentoso, tece um belíssimo exercício de encenação, construindo sua proposta estética a partir da idéia de urubus em cena - vasculhando vidas alheias sem a menor cerimônia -, com ênfase no diálogo entre o corpo e a voz, as coreografias, os elementos vazados no palco, a luz, os figurinos e a trilha sonora. A soma dessas instâncias criativas convergentes salienta uma ética de grupo, com a equivalência do lugar ocupado no palco (protagonistas têm a mesma importância no espaço dos chamados personagens secundários), alternância de papéis e criação individual assomando com harmonia no todo. Os figurinos de André Vital merecem um comentário especial. Criados em tons de cinza e preto, têm apliques e ornamentos psicodélicos, preenchendo o palco que conta apenas com molduras de retratos, de vários tamanhos, vazadas. Portando leques pretos e envelhecidos (asas de urubus? signos da burguesia decadente?), o elenco abre-o e fecha-o atrelando as seqüências de imagem e som à temperatura das ações. Há um momento inesquecível em que todos os leques criam um som percussivo e emocionante de escola de samba. A única ressalva é a curta duração da peça. Se isso for considerado pelo grupo, o problema poderia ser resolvido com uma solução mais criativa para o final do espetáculo. Antes de ser uma volta ao início, em flashes rememorativos do começo da peça, poderia caminhar mais um pouco, dando mais peso cômico-dramático às conseqüências da revelação sobre quem é o pai da criança. De resto, um espetáculo obrigatório a quem acompanha ou quer conhecer os bons resultados do teatro de grupo....
Fonte: Assessoria de Imprensa/Fentepp

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