terça-feira, novembro 9

Notícias do Paraná 3 - Crítica Jornal Diário dos Campos

Especial

Publicado em: 09/11/2010 - 06:00 | Atualizado em: 09/11/2010 - 21:36


Foto: Marco Antonio Favero

Teatro em estado puro; sem concessões

por Helcio Kovaleski


MONTAGEM Peça “Amargasalmas”, dos Ciclomáticos Companhia de Teatro, do Rio de Janeiro

Pelo segundo ano consecutivo, o teatro atingiu uma intensidade e um nível altíssimos no Fenata. Em 2009, isso se deu com “Por Que a Criança Cozinha na Polenta”, dirigido por Nelson Baskerville, pela Cia. Mungunzá, de São Paulo. Neste 38º Fenata, esse feito coube ao espetáculo “Amargasalmas”, dos Ciclomáticos Companhia de Teatro, do Rio de Janeiro (RJ). Não há palavra menor do que “magnífico” para descrever o trabalho escrito e dirigido por Ribamar Ribeiro – que já havia presenteado o público ponta-grossense, em 2007, com “Sobre Segredos & Mentiras”, um apanhado genial de textos de Nelson Rodrigues.

Em “Amargasalmas”, uma montagem que coloca em relevo o universo feminino naquilo que ele tem de misterioso, sublime, íntimo e até mesmo abjeto e sombrio, o axioma “menos é mais” assume uma proporção quase que definitiva. Pois que o cenário, constituído de cinco bancos (dois grandes, dois médios e um pequeno); os adereços (três argolas médias de madeira); e as quatro pernas de um tecido branco translúcido são suficientes para que o teatro preencha não menos que todos os espaços e se instale. Os bancos se transformam em tinas, espelho, cama e sala de parto; as argolas, em telas de bordado e metáforas do cíclico feminino; e as telas, cinema ao vivo. A música, que inclui Philip Glass, reconstrói um significado que atende de forma peremptória à encenação. E não há problema algum nisso. Quer melhor exemplo do que o que Stanley Kubrick fez com a canção “Singin’ in the Rain”, imortalizada no filme “Cantando na Chuva”, mas magnificamente reconstruída em “Laranja Mecânica”?

E o que falar do elenco? Cinco atrizes belíssimas, com suas presenças ao mesmo tempo envolventes, inteligentes, delicadas, fortes, de derreter o coração do espectador mais sisudo e mal-humorado. Um elenco, sem dúvida, brilhante. Em suma, o espaço cênico virou palco de embate entre o teatro e as forças da natureza.

“Amargasalmas” é teatro de fazer chorar, rir e refletir. Sem concessões. Pulsante, crescente, chocante, epifânico, surreal, expressionista, dramático até os estertores. Montagem dinâmica no sentido que Roberto Gill Camargo, um dos maiores nomes da semiótica teatral brasileira, dá ao conceito de “re-significações infinitas” e em que não aparece um “signo podre” sequer para embaçar o entendimento e a compreensão do espetáculo. Teatro forte, que toca no mais íntimo do coração e da mente do espectador, deixando-o perturbado durante muito tempo para que as epifanias do real se manifestem da forma mais sublime.

Isto é teatro, ponto. Muito obrigado, Ribamar. Muito obrigado, Ciclomáticos. Em algum lugar, Dionísio brinda o acontecimento de domingo (7) à noite com uma taça do melhor vinho.

Fonte: http://www.diariodoscampos.com.br/especial/noticias/35939/?noticia=teatro-em-estado-puro-sem-concessoes#

Notícias do Paraná 2 por Emmanuel Fornazari

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Universo feminino invade quarta noite do Fenata

Por Emmanuel Fornazari


Cinco atrizes traziam diferentes características das relações entre mulheres


O choro parecia vir do meio da plateia. O público correu os olhos e quando as luzes acenderam viu-se que era o começo de 'Amargasalmas'. Cinco mulheres tomavam o palco com banquinhos de madeira.

A poesia do texto era despejada pela voz, ao mesmo tempo, empossada, quanto suave. Eram diferentes perfis, mas todas mulheres. E em nenhum momento se sentiu a falta de um homem. Era a trama que envolvia o público.

“O feminino nem sempre é valorizado por todos. Muitas vezes apenas as mulheres se identificam. Porém, o espetáculo fez com que todos entrassem na história”, avalia o professor de Geografia, Edemar Rodrigues.

A musicalidade acompanha o espetáculo durante todo o tempo. As frases repetidas em ritmo, com todas falando ao mesmo tempo, provocavam música em sintonia. Os trajes de época traziam um caráter conservador, voltavam a um tempo em que as mulheres passavam parte vida se preparando para os maridos. Precisavam “estar prontas, eternamente prontas”.

A expressão era repetida com ênfase pela mandatária Astorga. A mais velha das quatro irmãs mantinha consigo um ar de tirana que encobria sentimentos escusos. Havia segredos e só Astorga sabia de todos eles.

O espetáculo propõe jogos psicológicos entre as personagens. Rebeca ironiza e caçoa a todas, principalmente Úrsula, a mais nova. Amélia, a cunhada intrusa, tenta se mostrar a mais sensata.

Enquanto Úrsula é a mais inocente e visionária. Porém, as três têm em comum os bordados. Precisam ser dotadas. Astorga impõe. Precisam estar eternamente prontas para os maridos que insistem em não voltar.

A quarta irmã não borda, não se comunica. Ela apenas sente as diferenças psicológicas e se alimenta do seu próprio desespero. “Queríamos justamente propor este sentimento na plateia. De que esta quarta irmã fosse diferente, provocasse inquietação. Ela não é mesmo igual a outras”, explicou o diretor, Ribamar Ribeiro, no debate após a apresentação.

Realmente ela não era igual às outras. Era a única que saía da casa. Não falava com as irmãs. Apenas sentia vibrações pesadas. Também pudera, a quarta irmã era a única viva dentro da casa.



Trajes foram usados para caracterizar conservadorismo

Pós-peça

Mais uma vez lotado – cerca de 600 pessoas do máximo de 700 – o Cine Teatro Ópera viu o público parabenizar a Companhia de Teatro Os Ciclomáticos do Rio de Janeiro, por ‘Amargasalmas’.

O professor de Artes, Mauro Souza, destacou a “dramatização e a postura de palco das atrizes”. Também professora de Artes, Jamile Souza destacou a importância da cultura para a sociedade.

“Eu acho a arte fundamental, faz parte da vida. Festivais como o Fenata que privilegiam a arte deveriam ser mais divulgados”.

Encenando Úrsula, a atriz, Fernanda Dias, ficou encantada com o número de pessoas que acompanharam a peça. Para ela, o Fenata mostra o potencial de Ponta Grossa na área de cultura.

“Não se pode dizer que Ponta Grossa é pequena, é uma cidade grande. É grande por causa da vontade de fazer o teatro acontecer. Nós, artistas, sabemos que não temos oportunidade de nos apresentar em todos os lugares. Quando uma cidade se propõe a fazer um evento deste tamanho, o festival faz a cidade ser um cidade grande, nunca uma cidade pequena”.

Segundo os atores, no Rio de Janeiro, cidade capital, “há apenas um festival e muito ruim”. O grupo Os Ciclomáticos já foi premiado em outra passagem pelo Fenata. Em 2007, arrebataram 14 prêmios na categoria adulto com o espetáculo 'Sobre Mentiras e Segredos'.

Nesta segunda-feira, o Cine Teatro Ópera recebe em seu Auditório A o monólogo Sintoma. A apresentação começa às 20h30, mas recomenda-se chegar com antecedência. Ingressos a R$6 com direito a meia entrada.

Fotos: Josué Teixeira

Fonte: http://einformacao.blogspot.com/2010/11/universo-feminino-invade-quarta-noite.html