sexta-feira, janeiro 9

Crítica de Sobre Mentiras e Segredos por Robson Camargo no FESTIVALE

Crítica dos espetáculos por Robson Corrêa de Camargo
Espetáculo : SOBRE MENTIRAS E SEGREDOS
Texto e direção Ribamar Ribeiro
SOBRE MENTIRAS E SEGREDOS
Melodrama Tragicômico
do Grupo Os Ciclomáticos
Cia. de Teatro, do Rio de Janeiro
Suburbanos Criadores Cariocas

Quais as mentiras e os segredos que escondem o Grupo suburbano carioca Os Ciclomáticos, na adaptação e releitura dos textos de Nelson Rodrigues? Uma delas é evidente. Se o XXIII FESTIVALE queria discutir as novas tendências dos teatro brasileiro, conseguiu, e de forma original.Confesso que no início fiquei um pouco apreensivo sobre as escolhas e ausências que estavam sendo anunciadas nos palcos do Vale do Paraíba, na cidade de São José dos Campos, neste ano de 2008. Mas aos poucos ficava claro a construção de um diálogo intenso entre dramaturgia e encenação e a riqueza das propostas selecionadas que apontam para um século XXI criador.

Sem contar os atores que nos introduziram nestes temas, dois dramaturgos formaram o centro das atenções e nos ajudam a entender algumas das novas tendências que apontam no horizonte: o veterano Luiz Alberto de Abreu e o mitológico Nelson Rodrigues. Por incrível que pareça, os diretores vivos e os dramaturgos encenados desenvolveram um intenso e reconstruído diálogo que, de certa forma, aproximou os diretores e esses dramaturgos de forma inaudita.

O dramaturgo paulista Luiz Alberto de Abreu é certamente um dos grandes dramaturgos brasileiro, pela amplitude e qualidade de sua obra, pelas montagens e pela sua inserção colaborativa no trabalho de vários grupos brasileiros, construindo um novo drama e uma nova encenação. Sua dramaturgia, gestada no inesquecível e irreverente grupo Mambembe, nos casarões escarpados da Rua dos Ingleses, em São Paulo, é fruto de um intenso diálogo reconstrutor das fontes e estilos da dramaturgia mundial. Leitor ativo, reconstrói à sua moda, sonhos dramáticos e quixotescos imersos em citações, colagens, montagens que nascem da e na cultura popular e em diálogo com todas as formas de expressão, sem preconceito. Como carpinteiro usa distintas madeiras e goivas para realizar os cortes necessários para sua arte de diversos feitios. Nomeie-se um grande dramaturgo, poeta ou romancista e você poderá encontrar partes de seu estilo ou de sua técnica na obra de Luiz Alberto de Abreu. Com o fermento da cultura popular, principalmente os da comédia, ele sova nosso passado cultural cozinhando uma dramaturgia de primeira qualidade.

E assim também foi Nelson Rodrigues. Infelizmente Nelson viveu em um tempo onde a dramaturgia que se construía tinha fronteiras mais claras e, sob o nosso ponto de vista multimídia contemporâneo, mais limitadas. Autores e encenadores viviam mundos separados. Seu diálogo era mais restrito, embora não de menor qualidade. Inspirado pela dramaturgia norte-americana, principalmente no anarco-socialista Eugene O’Neill, Nelson dialogava nervosamente com certo realismo “de vanguarda” e marginal nos Estados Unidos. O’Neill reconstruía Checov, Ibsen, Strindberg, Bernard Shaw, introduzindo no palco o idioma falado nas ruas e becos dos marginais da América, questionando o propalado sonho americano, sempre inalcançável. Este terreno da marginalidade foi revolvido a beça por nosso Plínio Marcos, outro autor dos malditos.

Nelson, por outro lado, se dirigia às mazelas do subúrbio carioca se concentrando numa critica dos costumes e da moral. Adriano de Paula Rabelo, em sua Formas do Trágico Moderno nas Obras Teatrais de Eugene O’Neill e de Nelson Rodrigues nos conta que “Uma vez perguntaram a ele (Nelson Rodrigues) quais eram as suas influências, e ele disse que eram uma só: O’Neill, O’Neill e O’Neill(…)”. Se O’Neill trazia a tragédia para a contemporaneidade dos excluídos norte-americanos, Nelson levava a tragédia para as margens da Central do Brasil, de forma particular e competente. Este terreno da marginalidade foi revolvido a beça por nosso Plínio Marcos, outro autor dos malditos e talvez mais parecido com O’Neill que Nelson. Mas isso pouco importa.

O saudável e inusitado da montagem de Os Ciclomáticos é a saudável releitura rodrigueana, pois se apóia não somente em grande escrita cênica de forma competente, que foi o que vimos nas arenas de São José dos Campos. Se o jornalista O’Neill se introduziu no mar dos marginais, atravessando todas as classes sociais, o jornalista “reacionário” Nelson navegou nas mazelas dos subúrbios cariocas retratando a miséria trágica brasileira, em seus quase míticos personagens suburbanos, tornando-se hoje reconhecidamente o mestre dos dramaturgos de nosso país. Nelson rebaixou à terra os pecados capitais e a virgindade, a traição virou tragi-comédia. Ninguém fez isso antes e não se fará depois. Infelizmente, como nota Alexandre Mate, esta mitomania obstaculiza uma miríade de outros grandes dramaturgos que compõem nossa cena. Estamos frente a uma moda de encenar Nelson Rodrigues. Mas eu gosto dela, numa época que se evitam os grandes textos dramáticos, embora também exija que os olhares dramáticos se dirijam a outras paragens, pois Nelson é grande mas não é o único e vimos isto com grande força no espetáculo recortado, colado ou re-enquadrado de Os Ciclomáticos.

O diretor e sua equipe artística, de grande qualidade, deixou as técnicas empoladas do performativo teatro atual para, como um alfaiate cortar, recortar e reconstruir a nova roupagem rodrigueana. Poderíamos até dizer, em processo colaborativo com o falecido Nelson, utilizando rubricas, trazendo o coro secundário em uma de suas obras para o primeiro plano e elaborando uma colagem criativa de seu texto reconstruíndo Nelson. Para quem quiser ter uma idéia das medidas tomadas pelo autor dramaturgo-encenador Ribamar Ribeiro, vejam partes do espetáculo ou algumas fotos em (http://osciclomaticos.blogspot.com / ).

‘Sobre Mentiras e Segredos’ é um verdadeiro desmontar e remontar do universo gracioso rodrigueano ou mesmo comprem seus ingressos e se preparem para uma nova apresentação. Vale a pena, sãoirreverentes. Este grupo de dez anos de idade constrói seu texto em camadas antepostas, contraditórias, num processo colaborativo com a obra de Nelson, aproveitando a ausência do grande autor, falecido. Se o universo do autor Pernambucano são os trágicos anti-heróis suburbanos, os ciclomáticos foram construindo sua poética nos tumultuados caminhos entre o Bonsucesso e o NorteShopping, distante da longínqua Sulacap, suburbanos bem comportados. Esses doces marginais, inspirados em Lewis Carrol montaram uma “Alice no País de Nelson Rodrigues”, como se imergissem dentro de sua obra, numa perspectiva quase surrealista e, para isso, resolveram aliar-se ao grotesco e a farsa para estudar as paranóias do grande cronista que foi Nelson.

Como na dramaturgia colaborativa de Abreu, colaborativa com os atores e a dramaturgia que lhe antecede, acumulam e reverenciam o autor, ao lado de uma profunda ironia e fina paródia. Seu espetáculo é um álbum de família que traz para nós, em seu processo narrativo, as ótimas rubricas rodrigueanas, jogando o texto lido por atores-narradores em cena abanada por leques que se abanam, introduzindo e abalando o costumeiro olhar rodrigueano.

Nelson se tornou, pela mãos dos Ciclomáticos e de outros elencos, uma grande tira de seda para os recortes dos irados alfaiates que popularam o território sagrado do FESTIVALE. A personagem central que constrói a trama enlouquecida é Alice (Fabiola Rodrigues), rodeada por um coro narrador de vizinhas andróginas: as vizinhas de Nelson, submissas entram em primeiro plano para comentar os pecados capitais. Um poderoso coro moral que oprime todos os personagens, em todas as obras de Nelson.

O drama virou uma narrativa. Aí se identificam criadores e criatura, pois os atores narradores, moralistas, são personas do próprio Nelson rubriqueiro, interpretam suas personagens e o próprio autor em sua escritura. Os personagens na obra de Nelson são atormentados pelos valores morais que os cercam, muitas vezes em personagens ausentes. Em sua boca proliferam valores morais decompostos, mas que fundamentam a moral contemporânea, ainda nos dias de hoje. Aqui o moralismo cerca as personagens e entretece de forma acentuada a grotesca e suburbana moral da classe média dos arrabaldes. Uma classe média que espargiu seus valores por toda nossa moral televisiva. Sim, pois diz o mito que a classe alta e o proletariado não tem moral, só a classe média.

E, para analisar esta dicotomia, se aliam os suburbanos Ciclomáticos num espetáculo de rara qualidade, num ciclo de eterno retorno, sob o prisma do tragicômico e de um grotesco bem comportado que se delicia com o folhetim e evita a peste. É uma montagem muito perspicaz e deliciosa de ser vista, mas cabe ao crítico incomodar. A montagem se apóia totalmente no narrativo e evita o dramático, num lance de rara felicidade, entretanto as chaves do grotesco formalmente utilizadas parecem muito bem comportadas, numa aparência de desfile exaltação, mais que de crítica formal.

A narrativa é sempre interrompida pela narrativa, em cortes ousados e instigantes que trazem o próprio texto dito comentando as máximas rodriguenas. Um achado. Mas a escolha dos figurinos e da maquiagem de André Vital, muito bem realizadas, assim como a bela iluminação de Mauro Carvalho, trazem uma certa monotonia, uma estabilidade. A figura ambivalente que compõe a narrativa dos vizinhos (aqui mais uma vez falo da parte visual), está um tanto gasta na exibição da mídia comercializada e isto parece que nos remete a um código visual do ainda estabelecido, se distanciando um pouco do corrosivo discurso dos textos que poderia carregar o expressionismo de Nelson, hoje.

Trás o grupo um dito de Gerd Bornheim, para substanciar o seu trabalho: a mentira é um texto a espera da sua teatralidade, e neste caminho costuraram a obra de Nelson, o que fizeram muito bem. Embora se perceba um certo apoiar em código visual um pouco preguiçoso e muito bem comportado, mesmo quando ousa.

Mas isso seria tema para outros grupos e outros diretores, neste tragicômico e competente melodrama “Sobre Mentiras e Segredos” de Ribamar Ribeiro. Um grande espetáculo que deve ser visto e revisto, para se pensar os novos tempos em que se inscreve e com quem dialoga o teatro Rodrigueano. Nele os autores-diretores recortam e re-escrevem os textos da contemporaneidade. Pelos textos apresentados neste festival de novas tendências o que se vê é que os novos artistas recontam as histórias de Nelson, um novo Nelson, com música e com afeto.

Robson Corrêa de Camargo/
Dezembro de 2008
robson.correa.camargo@gmail.com
Professor da Universidade Federal de Goiás. Encenador e crítico
teatral. Doutor em Artes Cênicas pela USP com o trabalho “
Espetáculo do Melodrama”. Trabalhou na Folha de São Paulo e Jornal
Movimento. Leitor crítico dos espetáculos do Festival Internacional de
Rio Preto (2008). Membro do Conselho Editorial das Revistas Karpa
(Califórnia State) e Moringa (UFPb). Tem publicações nas revistas
Gestos, Journal of Beckett Studies, Revista Fenix, etc. Coordena o
grupo Máskara de Pesquisa em Performances Culturais e a Comissão
Assessora de Teatro do MEC/SINAES.