quinta-feira, novembro 27

Crítica de Sobre Mentiras e Segredos por Alexandre Mate no FESTIVALE

Festivale - Festival de Teatro do Vale do Paraíba - Fundação Cultural Cassiano Ricardo

Fotos: João Teodoro

Crítica do espetáculo:

Espetáculo: SOBRE MENTIRAS E SEGREDOS
SOBRE MENTIRAS E SEGREDOS – A ANDROGINIA DAS VIZINHAS VENCENDO A MORAL E O EROTISMO EXACERBADO DAS MULHERES-OBJETO DE NELSON RODRIGUES.

Um dos melhores momentos da vigésima terceira edição do Festival do Vale do Ribeira, de São José dos Campos, foi vivido ontem, com o espetáculo apresentado pelo grupo Os Ciclomáticos Cia. de Teatro, do Rio de Janeiro. Mesmo premidos pela moda e
pelo mito (confere status montar uma obra de Nelson Rodrigues), Os Ciclomáticos
apresentaram uma surpreendente (des)montagem do universo rodrigueano, por intermédio
de algumas mudanças de foco.
A primeira mudança de foco diz respeito à dramaturgia. Partindo da exacerbação
dos conflitos de natureza sexual vividos por certo modelo de família tão ao gosto de Nelson
Rodrigues, Ribamar Ribeiro, autor do texto (a partir da junção e adaptação de textos
rodrigueanos e de processos de improvisação com os integrantes do Grupo) prioriza as
vizinhas na encenação. O texto, resultante desse processo, é fragmentado, ágil, e repleto
de intervenções. Os diálogos são desenvolvidos ao lado de intervenções das vizinhas –
sozinhas ou em coro, que apresentam comentários da vida da família, chefiada pelo
autoritário Dr. Ismael, que esquadrinha a vida de todos aqueles ao seu lado. Temperando
esses bons achados, os atores-narradores apresentam, ainda, rubricas do texto-base:
referindo-se às características das personagens e aos seus comportamentos. O texto,
portanto, tem uma característica épica em sua estrutura e em seu modo de apresentação
do conteúdo. A história da família é interrompida por corifeus e coriféias, de modo a
absolutamente teatral.
O espetáculo assume-se teatro e “não reproduz a vida como ela é”. Ao contrário, e
à exceção do Dr. Ismael, as personagens masculinas são andróginas: atores fazem as
personagens masculinas da peça e formam o coro das vizinhas, permanentemente em
cena. O excelente figurino de André Vital não é realista, mas composto a partir da junção de
recortes desiguais, repletos de detalhes e arabescos (formando uma miscelânea grotesca).
Ligado ao figurino, os leques que acompanham todas as personagens, ganham várias
significações na obra. Os leques representam, de certa forma, a batuta do conjunto de
maestros e maestrinas da cena: belíssimo achado. A maquiagem de ...., do mesmo modo
que os figurinos, tende a realçar, sobretudo os olhos, nesse caso dando completude à
vigilância das vizinhas, que, para bisbilhotar, precisam estar permanentemente de olhos
abertos. A cenografia, de Cachalote Mattos, é constituída por poucos praticáveis, algumas poucas
cadeiras e inúmeros bastidores-molduras-janelas: que devassam e, ao mesmo tempo,
congelam a intimidade da família de Alice. A iluminação de Mauro Carvalho aproveita-se da cenografia,
é eficiente e consegue tirar partido das difíceis cores que compõem o figurino. O trabalho
de coreografização dos corpos em cena, desenvolvido por Ribamar Ribeiro, cria excelentes desenhos e
deslocamentos das personagens. Enfim, em Sobre mentiras e segredos tudo se integra
formando e conferindo uma interessante unidade ao espetáculo.
À primeira vista e sem tanta reflexão, tendo em vista o impacto da obra, o
espetáculo pode transparecer maneirista. Entretanto, o trabalho da segura e sofisticada
encenação, a cargo de Ribamar Ribeiro, não permite que a obra se “afunde dentro dela
mesma.” Apesar de transitar com múltiplos signos, a obra conta a história muito bem, não
se caracterizando em enigma ou na reprodução tão ao gosto fotográfico do realismo. Obra
toda coreografa e fragmentada, marcada por staccato seguido de outro e outro, que
confere um ritmo alucinante, ao paroxismo. Difícil respirar! Esse ritmo frenético, algumas
vezes, mostra-se excessivo, mas nada que comprometa a obra. Nesse excesso, percebe-se
o trabalho composto a partir de muitas mãos: diferentes, singulares, mas que imprimem,
em conjunto, uma harmonia pela diversidade.
A junção de tão díspares e diferentes elementos apresentam uma metáfora bastante
significativa, talvez a mais cruel das metáforas, a de o real ser perverso e deformante!
Desse modo, e como ficou patente pelas falas do debate ocorrido em 21/11, o conjunto de
criadores da obra aproximou-se do expressionismo alemão. Penso que esta aproximação
deu-se singular e visceralmente plantado no pré-expressionismo alemão, naquele que vem
de Büchner, passa por Wedekind e começa a se espraiar em Kokoschka, ,á por 1907. As
personagens, mesmo as do núcleo familiar não são, em sentido clássico personagens, são
figuras: espécies de über-marionettes (super marionetes) desesperançadas, niilistas,
insanas, doentias... As figuras de Sobre segredos e mentiras são manipuladas pela
deformante realidade supervisionadas pelas vizinhas.
Trata-se de uma obra que adota o universo rodrigueano para colocá-lo de cabeça
para baixo. A encenação é irreverente e não mitomaniza o autor, não é obediente, não
sacraliza “o” Nelson Rodrigues, mas um parceiro por intermédio do qual se contou uma
história. Muitas dessas conquistas se deram pela heterogeneidade do elenco. Nesse elenco,
percebe-se que cada um se traz, formando um amálgama muito teatral, engravidado de
teatralidade.
Ao finalizar o espetáculo com o retrógrado (trajetória de traz para frente, por meio
da repetição de fragmentos ou flashes própria obra), se ainda houvesse alguma dúvida,
tudo tende a se esclarecer. A cena que congela o elenco no prólogo, a fragmentação da
narrativa e os desenhos de cena, a utilização do grotesco como tratamento estético. E
tudo faz sentido novamente.
Com esse excelente e coletivo trabalho, orquestrado pelo talentoso Ribamar Ribeiro,
Os Ciclomáticos Cia. de Teatro, conseguem desmistificar outro mito, pelo menos de certa
produção teatral paulista, a de que um bom espetáculo precise durar três, quatro horas.
Em cinqüenta e cinco minutos Os Ciclomáticos indicam um excelente caminho para se
repensar o teatro, Nelson Rodrigues, a unidade pela diferença, a paródia.
Longa vida ao grupo, muitos espaços de representação e de troca e reconhecimento,
eis o que esse Grupo pode esperar. Viva!

Alexandre Mate Professor e pesquisador de teatro

Fonte: http://www.fccr.org.br/festivale/criticas/Sobre_Mentiras_AleMate.pdf

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